JOÃO CABRAL DE MELO NETO

Poeta-Arquiteto

{outubro de 2005}

Estilo seco como “desenho de arquiteto”, diz ele num poema. Seco como a terra e o homem do Nordeste. O poeta diplomata jamais esqueceu a gente simples com quem conviveu até a juventude.

Desde criança, observava o ser humano, as paisagens, as faces do campo. Aprendeu a conviver com o requinte dos senhores de engenho e a rudeza dos trabalhadores. Descendente de famílias tradicionais de Pernambuco e da Paraíba, foi o segundo dos seis filhos de Luiz Antonio Cabral de Melo e de Carmem Carneiro Leão Cabral de Melo. Do lado paterno, primo de Manuel Bandeira; do materno, de Gilberto Freyre. Escolheu, na alma, ser homem do campo.
Nascido no Recife em 9 de janeiro de 1920, João Cabral de Melo Neto passa infância e adolescência nos engenhos da família, entre brincadeiras e passeios a cavalo. Aos domingos, pedia ao administrador que lhe trouxesse folhetos de cordel da cidade. Reunia os empregados e lia as histórias para eles.
A herança da convivência carregaria vida afora. Comentou o poeta Décio Pignatari: Ele tem um lado popular que se chama João Cabral e tem um lado aristocrático que se chama Melo Neto. […] passou quarenta anos tentando resolver este conflito.
E por conflito com Getúlio Vargas, em 1930, seu pai abandona o engenho. João Cabral cursa o secundário no Recife. Tímido, introspectivo, angustiado, acostuma-se à visão dos retirantes, dos habitantes dos manguezais, em contraste com a vivência nos casarões.

Não chuva azul: lodo
Em 1942, muda para o Rio, nomeado para o serviço público; e estréia com Pedra do Sono, seguido em 1945 por O Engenheiro. Cristaliza já seu estilo, em que a poética se funda no rigor estético personalíssimo com que escolhe e dispõe palavras. Estilo “seco”, por ser mais “contundente”, como define no poema A Palo Seco.
E começa a peregrinação pelo mundo. Diplomata, serviria em Londres, Sevilha, Madri, Genebra, Berna, Assunção. Na Espanha, escolhe como trabalho manual, a conselho médico, a tipografia. Surge o selo O Livro Inconsútil, com edições raras – entre elas, Mafuá do Malungo, brincadeiras de Manuel Bandeira com nomes próprios. Numa das dedicatórias, Bandeira elogia o primo: Mando este livro, no qual / Ruim é a parte do Manuel, / Ótima a do João Cabral.
Novos cenários reavivam as diferenças sociais presenciadas na infância. O Cão Sem Plumas (1950) traz versos guiados por essas preocupações: Aquele rio […] / Nada sabia da chuva azul, / da fonte cor-de-rosa […] / Sabia dos caranguejos / de lodo e ferrugem.
A Educação pela Pedra, em 1966, traz curiosa homenagem. Sofria terríveis dores de cabeça. Em Num Monumento à Aspirina, agradece ao comprimido – tomou mais de 70 mil ao longo da vida: Sol imune às leis da meteorologia, / a toda hora em que se necessita dele / levanta e vem (sempre num claro dia): / acende, para secar a aniagem da alma, / quará-la, em linhos de um meio-dia.

Morte e vida
É eleito por unanimidade para a Academia Brasileira de Letras (1968). Publica sua Obra Completa em 1994, cinco anos antes de morrer, em 9 de outubro de 1999, no Rio. Deixou livros recheados de obras-primas, mas o trabalho mais conhecido e reverenciado é Morte e Vida Severina. Musicado por Chico Buarque e encenado, esse auto de natal recebeu prêmios até no exterior e pôs João Cabral entre os principais autores de nosso tempo. Morte e Vida Severina conta a história do sertanejo que se arvora a cruzar os campos, tecendo sua visão do mundo a partir dos encontros com seus pares. Retrato da existência brasileira mais chã:
[…] morte severina:
que é a morte que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia.


SAIBA MAIS:
Cadernos de Literatura Brasileira, vol. 1: João Cabral de Melo Neto (IMS, 1996). 

Juliana Winkel
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