INEZITA BARROSO

Pra curtir viola, pra defendê, pra ispaiá

{agosto de 2000}

Recebemos Inezita Barroso, que há 20 anos comanda Viola, Minha Viola na Tv Cultura-SP.  Bandeira da cultura popular; bebeu da fonte caipira desde a infância. Trouxe violão e cantou. Raridade: entrevista musicada. E, como Inezita é artista, fala por imagens, que às ve­zes a gente só entende naquele mo­men­to. Com permissão dela, inserimos observações para melhorar a compreensão do que ela queria dizer.

Elifas – Gostaria que você começasse pela im­por­tân­cia que a gen­te tem que dar hoje ao que chamamos de cultura popular, com as no­vas tec­no­lo­gi­as, globalização, in­ter­net.

Arley – O bombardeio de informações é bom ou vai prejudicar?
Se continuar o tipo de in­for­ma­ção que bombardeia, vai prejudicar.

Iolanda – O que interfere na identidade bra­si­lei­ra?
Estão dando uma idéia falsa do Bra­sil e do brasileiro. Co­me­ça por uma lacuna de anos. São Paulo, por exemplo, parece que pa­rou em Mário de Andrade. Dou aula há 15 anos e, toda vez: “Que livro com­prar?” Você fica hor­ro­ri­za­do de ver que não tem nada. E a cultura pau­lis­ta é escondida. Mário fez todo aquele tra­ba­lho, per­de­ram-se os fil­mes. Quem era Má­rio de Andrade? Autor de Ma­cu­na­í­ma… “ape­nas”. O ho­mem fez pes­qui­sas de linguagem cai­pi­ra, re­gi­o­nal, do Bra­sil inteiro. Aí apa­re­ce o Gui­ma­rães Rosa como único ino­va­dor. Es­que­cem que houve um Mário antes. De re­pen­te, a in­ter­net. Mandei fazer pes­qui­sa sobre Folia de Reis. Tinha dez trabalhos; nove co­pi­a­ram da in­ter­net.

Mylton – A internet tem que vir para o bem. Os alunos copiam dali, como podiam copiar de outro lugar, tem alguma outra cau­sa.
Sim, é que a pesquisa dá trabalho.

Elifas – Ao mesmo tempo, precisamos re­co­nhe­cer que tem gente in­ves­tin­do em conteúdo na internet. Temos grupos que estão re­fa­zen­do a viagem de Mário pelo Brasil. E tentando torná-la acessível na rede, ou seja, recuperando.

Luiz Henrique – Você pede Folia de Reis, lon­ge da realidade de­les.
Mas está aí, vivíssima.

A Folia de Reis está vivíssima no interior pau­lis­ta, em Minas, Per­nam­bu­co, Ceará e Santa Ca­ta­ri­na, além de ocor­rer em vá­ri­os pon­tos do País. Outras festas po­pu­la­res con­ti­nu­am vi­vís­si­mas também: Festa do Divino, por todo o Brasil urbano e ru­ral, e bas­tan­te forte em São Luís do Paraitinga, SP; o bum­ba-meu-boi, com inú­me­ras va­ri­a­ções, ocorre do Ama­zo­nas a Santa Ca­ta­ri­na; frevo e maracatu des­lum­bram turistas de toda parte em Olinda e Recife; sem falar nas festas juninas, nas re­li­gi­o­sas que ocor­rem o ano in­tei­ro; e o car­na­val, que está sendo co­pi­a­do em vá­ri­os países.

Iolanda – Você acredita na transformação?
Acredito. Tem retomadas. Obri­ga­ram a estudar folclore na década de 1960. Len­ta­men­te, vão colocando no curso de tu­ris­mo, edu­ca­ção ar­tís­ti­ca, quando deveriam entrar com tudo.

Concordamos com Inezita. Além de resistir, é preciso lutar, como  sem­pre fez, por novas retomadas de brasilidade. Por isso mes­mo fa­ze­mos este Almanaque.

Elifas – Como você vive a necessidade semanal de divulgar nossa di­ver­si­da­de cultural?
A dificuldade é grande. O programa está há vinte anos no ar, eu brigo há vinte anos. A tendência é fazer igual aos outros. De­pois, tem a manipulação das gravadoras. Acham que não estou ven­do. Não vou explicar para eles o que é raiz, o que é cultura, o que é popular. Eles só pensam em dinheiro.

Elifas – A que você atribui o descaso? Não tem audiência?
Imagine! O Viola é o campeão de au­di­ên­cia da Cultura há vinte anos.

Iolanda – O que te move a fazer um trabalho desses?
Amor ao Brasil. Pesquisa. No Nordeste, no Norte, é mais fá­cil. Não tiveram essa lacuna que teve em São Paulo. Todo ano tem Boi, Pastoril, São João. Em 1956 fui pela primeira vez. Abri o bico, cantei e eles disseram: “Mas que música linda!” Falei: “É de São Paulo.” “São Paulo?” Dei três recitais no Recife. Foi as­sim que comecei a carreira.

Inezita sempre cita São Paulo com razão. Por exemplo, na úl­ti­ma me­ta­de do século, foi da­qui que se irradiaram movimentos ar­tís­ti­cos im­por­tan­tes. Bastaria citar os festivais da TV Record, que revelaram para todo o País e o mundo valores como Chico Bu­ar­que, Mar­ti­nho da Vila, Cae­ta­no Veloso, Gilberto Gil, Ge­ral­do Van­dré, Edu Lobo e muitos ou­tros.

Mylton – Você tem preferência por São Paulo ou se considera bra­si­lei­ra?
Brasileira. Cada can­to tem seu jeito, é tudo lin­do. Tem-se a mania de di­zer que a mú­si­ca de São Pau­lo é “cai­pi­ra”. É di­fi­cí­li­mo, moda de vi­o­la. Can­tar em duas vozes, afina­­do, de ou­vi­do, a viola acom­pa­nhan­do, vá­ri­os gê­ne­ros. Pu­se­ram na ca­be­ça que mú­si­ca cai­pi­ra é hu­mo­rís­ti­ca. Ain­da estão gru­da­dos no Ran­chi­nho e Alvarenga, que nem eram paulistas; eram mineiros. Não dis­tin­guem os toques de viola; são 34, com cor­do­a­men­tos di­fe­ren­tes. Cada estilo, uma re­gião. A isso não dão va­lor. É uma pena.

Elifas – O chamado “new caipira”, “sertanejo”, megassucesso.
Eu divido em dois: de um lado, arte e cultura; do outro, dinheiro. O Sesc-Pompéia (de São Paulo) fez um espetáculo com violeiros. Conhecidíssimos fora do Brasil. Ivan Vilela, Pau­lo Freire, Roberto Corrêa. Quem foi ver ficou louco, apaixonado.

Luiz Henrique – A impressão é que isso que você representa esteja che­gan­do ao fim. A gente não vai ter uma nova cultura popular?

Mylton – Isso se encaixa no que a Iolanda falou, a transformação: a raiz, a matriz é sempre a mesma. Portanto, a evolução é inevitável.
É. E isso não morre. Tá assim de gente moça tocando viola, criança de sete anos até ve­lhos de 89. Os mais velhos pas­san­do cultura. Chitãozinho e Xororó inventaram de tremer a voz, aí vêm trezentas duplas fazendo o mesmo. Mas eles nem sabem por quê. Os violeiros cantam em louvor a Nossa Senhora da Cruz, e o grupo dá esse grito: a parte permitida às mulheres. Coisa de índio. Não é que é machista. É tradição. Essa coisa está grudada dentro do cai­pi­ra. Uma cena, um animal bonito; ele se lembra dos casos e quer contar.

Iolanda – Nas escolas se discutia folclore, mú­si­ca e isso acabou.
Faz parte da lacuna. Até tiraram canto orfeônico da es­co­la. Não precisa o exagero de cantar o hino nacional todo dia an­tes da aula. Mas é de morrer de vergonha ver na Copa do Mundo os jo­ga­do­res mas­can­do chiclete na hora do hino. Houve tempo em que, antes das aulas, se can­ta­va, não só o hino, mas qualquer mú­si­ca. Foi um crime ter tirado música da escola. Coisa que Hei­tor Villa-Lobos tanto lutou para im­plan­tar.

Elifas – A gente sempre bate na questão básica, educação.

Mylton – Qual é a grande criação do povo bra­si­lei­ro?
É viver. É resistir.

Luiz Henrique – Você considera manifestações do tipo rap, hip-hop, cul­tu­ra popular?
Nossa!

Luiz Henrique – A molecada se iden­ti­fi­cou, vi­rou grande manifestação.

Elifas – Vejo essas ma­ni­fes­ta­ções como coisas importantes do momento. Daqui a cem anos es­ta­rá tudo incorporado à nossa cultura.

Mylton – O rap já esqueceu a fon­te. Eles usam uma forma. O con­teú­do é da periferia das nos­sas gran­des cidades.

Iolanda – No Nordeste acontece o mesmo.

Arley – Isso de pegar, mastigar, digerir e fazer outra coisa é do bra­si­lei­ro. É coisa nossa, como já dizia Noel Rosa.
É verdade. Senão, a gente seria so­men­te português, so­men­te indígena, somente negro. Pegaram as coisas ótimas. Do ne­gro, o ritmo, a vivacidade. Do índio, a coisa delicada, as flau­ti­nhas, o apito. Do português, a linha musical, Europa. E virou música bra­si­lei­ra. A melhor do mundo.

Luiz Henrique – Nós fizemos uma lista mínima de gente que carrega a tradição: Antônio Nó­bre­ga, Rolando Boldrin, Luiz Vieira, Teo Aze­ve­do, Almir Sater, João Bá, Elomar, Sérgio Reis, Re­na­to Teixeira, Saulo La­ran­jei­ra, Fernando Faro. Quem mais você citaria?
A Helena Meireles é uma figura. Na pri­mei­ra vez que con­vi­dei para ir ao Viola, acha­ram ruim: “é feia, velha”. Aí ela saiu na capa da re­vis­ta americana. Mato Grosso é mui­to bom. Tem a mis­tu­ra com que o pessoal im­pli­ca, harpa. No Pa­ra­guai não to­ca­vam sanfona. A fron­tei­ra fol­cló­ri­ca é mais im­por­tan­te que a ge­o­grá­fi­ca. Nos res­tau­ran­tes de Mato Grosso, con­jun­to tem har­pa, san­fo­na, vi­o­lão, tudo jun­to. E dois can­to­res. Um ho­mem e uma mulher. De ócu­los pre­tos. É gos­to­so de ouvir. Não can­sa.

João Pacífico

Perto do Coração

Eu quando pego a viola
E sinto roçar no peito
Eu canto até d’outro jeito
Pra minha mágoa esquecer.
Eu tenho guardado nela
Com jeito e muito carinho
Aquele teu retratinho
Que faz lembrar de você.
A viola sabe que o peito
É onde o amor faz seu ninho.
Viola é feita de pinho
Mas ela tem coração.
Por isso toda cabocla
Que tem amor tem viola.
Este meu pinho consola
A minha grande paixão.
Por sua causa caboclo
Nas hora que estou sozinha
Eu passo a mão no meu pinho
Faço o peito soluçar.
Olhando o seu retrato
Eu canto minha canção
Que é perto do coração
Onde você sempre está.

Janaina – Você foi pesquisar em Recife no iní­cio da carreira?
Também. Tinha ido para ver o frevo. É um malabarismo. Dança individual, con­ta­gi­an­te. Ninguém fica parado. É lindo ver.

Mylton – Como veio a vocação?
Desde seis anos. Ia para as fa­zen­das dos meus tios. Cam­pi­nas, Itapetininga, Matão, Itirapina, Itapira. Jo­ga­va a mala longe e ia ver a viola. “Deixa eu tocar um pou­qui­nho”, eles dei­xa­vam. Era roda de violeiro toda noite.

Luiz Henrique – Tradição oral?
A Moda da Pinga. Já saiu briga de morte para ver quem era o autor. Gravei. Foi meu pri­mei­ro disco, Ronda (de Paulo Van­zo­li­ni) do outro lado. Duplicou a briga pela au­to­ria da Pin­ga. O Paulo falou: “Vamos acabar com a briga. Faço três estrofes e você grava.” Tri­pli­cou a bri­ga. E a gente morrendo de rir, porque a gente registrou.

Luiz Henrique – Você recolheu coisa inédita?
Sim, fiz uma viagem de jipe, di­ri­gin­do, até o Rio Grande do Norte, pelo litoral.

Luiz Henrique – Chegava nas vilas e pedia mú­si­ca?
Eles não gostavam de mulher de cal­ça comprida. Iam as meninas com bloquinho, “como é?”, “vô cantá travêis”, com uma má von­ta­de, as meninas querendo tomar nota, “como é?”, “perdeu? perdeu! não vô cantá mais”.

Iolanda – Tem um espírito caipira?
Tem. Ele não ri, não. Tiram um sarro de dar pena. Você passa por uns testes. “Toca aí na afinação cebolinha”, eu tocava. “A mulher é boa. Agora toca rio-abaixo.” Eu toco umas três afinações. Por sorte, as de que eles gostam. Aí um velhinho diz: “Putaquipariu, já pode cantá no coreto de Piracicaba!”

Mylton – Você falou da infância; e depois?
Eu vim cantando e tocando viola sem a família saber, porque era feio. Aprendi o Boi Amarelinho, modas tradicionais, tinha me­nos de sete anos. Em São Paulo, minha ma­dri­nha, a tia mais loucona, aprendia violão. Eu era ma­gre­la, me escondia atrás do sofá, vinha o pro­fes­sor. Acabava a aula, eu pegava o violão e man­da­va ver. Fazia tudo. Um dia ela voltou à sala e me pegou. “Um crime essa menina não apren­der música.” Aprendi uns tangos. Virei bi­chi­nho de estimação. Aca­ba­do o jan­tar, me pu­nham em cima da mesa para can­tar. Meus tios: “Não deixa ela cantar, é mú­si­ca de ca­ba­ré!” Mi­nha tia: “Vou descobrir um curso de criança.” Me levou: dona Meire Bu­ar­que. Só que tinha De­cla­ma­ção, Dança, Vi­o­lão e Boas Maneiras! No co­me­ço sofri tanto! “Não cruza a perna, tem que passar por trás”, lembrar de tudo aquilo e tocar e cantar. Ti­nha esse ne­gó­cio de menina, “não vai seguir car­rei­ra, é só para ficar mais de­li­ca­da, boas ma­nei­ras”.

Mylton – Mas teve de resolver esse conflito.
Comecei a fazer rádio, infantil. O pro­gra­ma se chamava Violeirinhas e Bandeirantes. Do­min­go à tar­de. Cantei boleros com piano.E fa­zen­do bi­bli­o­te­co­no­mia. Me formei e fiquei lou­ca para pes­qui­sar. Saí viajando. Aí comecei a me apai­xo­nar pela mú­si­ca, total: popular, car­na­va­les­ca, cai­pi­ra.

Elifas – Você se transformou em bandeira da nos­sa cultura. Você é isso: um emblema para todos nós, bandeira de resistência, re­cu­pe­ra­ção e pre­ser­va­ção da cultura popular brasileira.
Eu fui escolhida e faço isso com orgulho.

Abre-se uma garrafa de uísque 12 anos. Inezita beberica dois dedos, “caubói”, pega o violão a nosso pedido, solta o vozeirão e nos emociona com sua arte, paulista e brasileira. Das quatro músicas que can­tou, publicamos Perto do Co­ra­ção, de João Pa­cí­fi­co. Inezita explica. Violeiro apai­xo­na­do põe re­tra­to da amada pregado por den­tro da viola, de ca­be­ça pra baixo. Na hora de ofe­re­cer música pra “ela”, inclina no peito a vi­o­la e can­ta olhando o retrato.

Participou como convidado o jornalista Arley Pe­rei­ra, que prepara livro sobre Inezita.

Da Redação
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