CLARICE LISPECTOR

Quem se atreve a definir esta mulher?

{novembro de 2001}

Enigmática, para Antônio Callado. Um mistério, para Carlos Drummond de Andrade. In­so­lú­vel, para o jor­na­lis­ta Paulo Francis. Ela não fazia li­te­ra­tu­ra, mas bru­xa­ria, disse Otto Lara Resende.

Clarice Lispector

Em maio de 1976, o jornalista José Cas­te­llo, colaborador de O Globo, recebe a mis­são de entrevistar Clarice Lis­pec­tor. Corre bo­a­to de que ela não quer mais saber de en­tre­vis­tas, mas Castello consegue o encontro. Di­a­lo­gam:
J.C. – Por que você escreve?
C.L. – Vou lhe responder com outra per­gun­ta: – Por que você bebe água?
J.C. – Por que bebo água? Porque tenho sede.
C.L. – Quer dizer que você bebe água para não morrer. Pois eu também: escrevo para me manter viva.

Investigada por pesquisadores apaixonados no mundo todo, Clarice é uma das mais cul­tu­a­das escritoras brasileiras. Para muitos, das mais importantes do século 20, no mundo.
Clarice nasceu em Tchetchelnik, Ucrânia, em 10 de dezembro de 1920. Os pais, Pedro e Marieta, junto com as filhas Elisa e Tânia, es­ta­vam emigrando para o Brasil. Pararam na­que­le lugar apenas para Clarice nascer. Com dois meses de vida, desembarcava com a fa­mí­lia em Maceió, Alagoas, onde viveu por três ou quatro anos. Mudam depois para o Recife.
Em 1929, perdeu a mãe. A menina já escrevia historinhas, recusadas pelo Diário de Per­nam­bu­co, que mantinha uma página infantil. Elas não tinham enredo e fatos – apenas sen­sa­ções. “Guardo de Pernambuco até o sotaque. Quem vive ou viveu no Norte tem uma forma de ser brasileiro muito especial.”

Coração selvagem
Adolescente, segue com o pai e as irmãs para o Rio. Termina o secundário, dá aulas de por­tu­gu­ês para contornar a crise financeira da fa­mí­lia. Entra na Faculdade Nacional de Direito em 1939. No ano seguinte perde o pai. Tra­ba­lha como redatora no jornal A Noite, onde publica contos. Em 1943, casa com o di­plo­ma­ta Mau­ry Gur­gel Valente.
Perto do Coração Selvagem, primeiro ro­man­ce, publica em 1944. Ela o havia escrito aos 19 anos. A jovem revelação des­nor­teia a crí­ti­ca. Há os que buscam in­flu­ên­ci­as, in­vo­cam cer­to tem­pe­ra­men­to fe­mi­ni­no. Ou­tros não a en­ten­dem.
“Não sei o que quero e, quando descobrir, não preciso mais. Acho que quero entender. Quan­do escrevo, vou des­co­brin­do, aprendendo. É um exercício de aprendizagem da vida.”
Viveu em vários países, acom­pa­nhan­do o ma­ri­do. Ná­po­les, Berna, Wa­shing­ton se re­ve­zam com pas­sa­gens pelo Bra­sil. A vida de mu­lher de di­plo­ma­ta não lhe agradava. Em 1947, es­cre­ve às irmãs:
“Tenho visto pessoas demais, falado demais, dito mentiras, tenho sido muito gentil. Quem está se divertindo é uma mulher que eu de­tes­to, uma mulher que não é a irmã de vocês.”
No exterior lhe nascem os dois filhos. Mãe, Cla­ri­ce di­vi­de-se en­tre as cri­an­ças e a li­te­ra­tu­ra.

Água demais, a flor apodrece
Separada do marido em 1959, volta ao Rio com os filhos. Mais um período de dificuldades afe­ti­vas e financeiras, apesar de já ser escritora famosa, com obras publicadas no exterior. Em toda a década de 1960, colabora em vários jor­nais e revistas para sobreviver, faz traduções.
Em 1969, já era autora de obras im­por­tan­tes como O Lustre (romance, 1946); La­ços de Fa­mí­lia (contos, 1960); A Maçã no Escuro (ro­man­ce, 1961); A Pai­xão Se­gun­do G.H. (ro­man­ce, 1964); Uma Apren­di­za­gem ou O Li­vro dos Pra­ze­res (ro­man­ce, 1969). In­co­mo­da­va-se com sua mi­ti­fi­ca­ção: “Mui­to elo­gio é como bo­tar água demais na flor. Ela apo­dre­ce.”

Não se trata de literatura, mas bruxaria

Clarice morreu de câncer em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos. Poucos meses antes concedeu cé­le­bre en­tre­vis­ta a Júlio Lerner, da TV Cul­tu­ra. Ela acabava de terminar A Hora da Estrela. Es­cre­ver era vi­tal para a mis­te­ri­o­sa Cla­ri­ce. Na úl­ti­ma en­tre­vis­ta con­fes­sa­va:
“Quando não escrevo, estou mor­ta.”
Em 1975, convidada a participar do Con­gres­so Mundial de Bruxaria na Colômbia, limitou-se à leitura do conto O Ovo e a Galinha, “um conto meu que eu não compreendo muito bem”. Na década de 1990, o escritor Otto Lara Resende advertiu José Castello, que escrevia biografia de Clarice:
“Você deve tomar cuidado com Clarice. Não se trata de literatura, mas de bruxaria.”

“O melhor produto do Brasil ainda é o brasileiro”
Câmara Cascudo

Luiz Henrique Gurgel
Nenhum comentário. Comente!
Compartilhar



Tags: , ,