Sem ele a vida estaca

{novembro de 2003}

Certas atividades o progresso elimina. Progresso não significa sempre melhoria. Guerras menos antigas usavam um morteiro portátil de 31 milímetros. Dependia de um operador para carregar o tubo de disparo e outro para transportar a base. Dobradinha inseparável. Ajudei a levar o bicho nas costas. De nada serviu o esforço. Nem para citar no currículo. Como a chuteira de bico duro, o morteiro também saiu de moda. Mas nenhum assunto é descartável. Sucata de memória se presta para iniciar assunto. É o que está acontecendo.
Há coisas que só existem em dicionário. Exemplos: calceteiro, amanuense, rábula. Raro um fantasma de carne, ruga e osso: o consertador ambulante de frigideiras, panelas, caçarolas. Mais comum o afiador ambulante de faca, canivete, punhal, tesoura, cortador de unhas. Ao passar de avô a neto a profissão se esgarça. Relíquia apenas a gaitinha, solitário solo no barulho urbano.
Uma profissão resiste ao se adaptar aos tempos: jornaleiro. Jacaré foi um. Não sei o nome na certidão de nascimento. Que tinha a boca larga, tinha, com quase todos os dentes. Carregava os jornais na ilharga presos por uma tira de couro escuro. Os jornais todos eram a Gazeta, distribuídos nos escritórios a partir das duas da tarde. As pessoas esperavam o jornal como carta de parente. O vespertino fazia questão de sair pontualmente à tarde.
O outro, bem mais antigo, Diário Popular, criado para fazer contraponto ao primeiro matutino, A Província de S. Paulo, mudou de horário.
Dizem que Jacaré era especializado em distribuir a Gazeta. Ignoro se era possível sobreviver vendendo apenas um título. Pode ser. Vender jornal não era bem coisa só para adultos. Na história o primeiro vendedor de jornal foi um francês, anunciava as notícias a cavalo. A revolução foi dinamizada por garotos, que tinham fôlego e boas pernas. Uma estátua de moleque jornaleiro ornamenta uma praça paulistana. O símbolo parece ficção.
Jornaleiro hoje é profissional. Duas grandes empresas se encarregam da distribuição das milhares de publicações em São Paulo. Para ser jornaleiro, dono de banca, é necessário madrugar. Reduziu-se drasticamente o número de títulos jornalísticos. Raríssimos são jornaleiros ambulantes.
A Gazeta, de texto cuidado lido como exemplo nas escolas de jornalismo, foi para o espaço. O que explodiu foi o número de revistas. As bancas de jornais preferem ser conhecidas como revistarias.
Algumas publicações são mais efêmeras que moscas. Outras avançam no tempo. Bancas podem chegar a 4 mil títulos de publicações, que não se prendem, claro, a notícias do dia. Vão de culinária, pontos de tricô, trabalhos manuais, flores, bordados a exercícios físicos, palavras cruzadas, passatempos, frivolidades. E, desculpem o termo, enchimento de lingüiça. Ajudam o lazer nas cabeleireiras e dissimulam apreensões nas ante-salas de consultórios de médicos, dentistas, laboratórios de exames clínicos.
Bancas também oferecem sexo e nudez menos como informação e mais como comportamento social. É negócio. Impossível acompanhar sequer uma migalha dos assuntos que as bancas expõem. Jornaleiro recebe as publicações em consignação, em pacotes fechados. Se vender, bem. Caso contrário, as publicações são devolvidas sem ônus. O controle das distribuidoras por computador confere se há venda ou encalhe. Conforme ocorre um ou outro caso, aumenta ou diminui a nova remessa de mercadorias para exposição nas bancas.
Junto com o produto diário da imprensa, jornaleiro se vira oferecendo pilhas, bombons, isqueiros, filmes, máscaras, pães-de-mel, livros de auto-ajuda, guias para turistas, mapas, novelas, chicletes, brinquedos, manuais para mães e pais, colas, adesivos, baralhos, cigarros, cedês, cursos de línguas, doces de leite, banana, amendoim, e mais tudo o que couber nas prateleiras.
Em suma: o tempo do Jacaré já era. Ele mesmo se foi. Alguns jornaleiros, poucos, mantêm televisor ligado. Não querem perder nenhuma notícia. Outros deixam passar em branco até o Dia do Jornaleiro. Vivem com a cabeça nas nuvens. Se bem que o presente ALMANAQUE é um trem de pouso para esse tipo de pessoas.

30/9 é o Dia do Jornaleiro

Lourenço Diaféria
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