Pasquale Cipro Neto

“Toda língua tem seus mistérios, sua pele, seu cheiro”

{maio de 2005}

Maio começa com o Dia da Literatura Brasileira, logo no dia 1º, que também homenageia o trabalhador. Tem também, a 21, o Dia da Língua Nacional. A dose tripla nos levou a ouvir o incansável professor de português Pasquale Cipro Neto. Filho de italianos, nascido “trilíngüe”, como ele diz, cedo se apaixonou por toda manifestação cultural brasileira. Há 13 anos na Rádio Cultura de São Paulo e há 11 na TV Cultura, leva ao ar programa divertido, que nos instiga a amar e zelar por “nossa língua portuguesa”.

Pasquale: "Nasci Trilingue".

Agradecemos por nos receber.
Eu que agradeço. Acho o trabalho de vocês vitorioso. Tem um gosto de antigo-moderno. Eu me lembro da Mooca quando leio. Nasci em 1955, lembro a Farmácia Tupi, onde tomei muita injeção. E pegava lá um almanaque. Eu vejo esse Almanaque. Escrevi sobre ele na Folha de S.Paulo.

Aquele artigo nos alegrou.
A avó disse “Getúlio matou-se a si”, e o menino entendeu “Getúlio matou o saci”. Genial. Em Portugal eles dizem assim. Na Bahia também. O baiano, nesse ponto, é barroco, ele diz, no melhor estilo de Gregório de Matos: “Ela me viu a mim”.

Você começou no rádio e o nome do programa era Língua Brasileira, não?
A estréia foi dia 31 de março de 1992. A música de abertura era Língua, do Caetano Veloso – Gosto de sentir a minha língua roçar / A língua de Luís de Camões / Gosto de ser e de estar / E quero me dedicar / A criar confusões de prosódias. A idéia não era proclamar a tese de que a língua do Brasil é o brasileiro. É o português. Na vertente brasileira. Não é brasileiro porque a estrutura é a mesma. Só que com cores próprias. A idéia de Língua Brasileira é que esse “brasileira” equivalesse a “do Brasil”, no sentido de língua feita aqui, com a cultura daqui. Poetas brasileiros, jornalismo brasileiro, publicidade brasileira, literatura brasileira. E assim ficou até estrear na TV Cultura, em 1994. No Conselho Curador, alguém levantou uma objeção: “Podem achar que é uma declaração de guerra a Portugal…” E me veio à cabeça: Nossa Língua Portuguesa. Acho que fui até mais amplo.

“A avó disse ‘Getúlio matou-se a si’ e o menino entendeu Getúlio matou o saci. Genial”.

Quando descobriu a vocação?
Nasci trilíngüe. O Lula disse outro dia: “Minha mãe nasceu analfabeta”. A gente sabe o que ele quis dizer. Também “nasci” trilíngüe, sou filho de italianos. Meu pai estava no Brasil fazia três anos, embora já dominasse a língua portuguesa porque minha avó, mãe dele, morou em Minas Gerais dos 17 aos 26 anos. Ela cantava Só vivo quando te vejo / Noite e dia penso em ti. Na Itália, em Milão, cantava para mim e eu ficava emocionadíssimo.
Na minha casa se falava italiano e o dialeto dos meus pais, de Nápoles. Com 5 anos entrei no primário. No colégio, existia francês e inglês, e eu me dava muitíssimo bem. Sempre gostei de ler.
Quando me tornei professor, jornal, propaganda, letra de música, nada disso entrava na sala de aula. Passei a fazer disso ingrediente da aula. E, claro, dando vez aos clássicos, porque devem ser bem conhecidos.
Foi importante ter aprendido outras línguas, ter ouvido meu pai. Ele era engenheiro e tinha cultura humanista. Era um mar de citações. É por isso que acho que começa em casa. É difícil sem ser assim: o cara tem que sofrer, buscar por si. Sem contar os casos em que a família desestimula. Mulher, então, Deus me livre! Tinha que tirar o diploma do primeiro ciclo e casar!

Dizem que o português é difícil.
Discordo. Toda língua tem seus mistérios, sua pele, seu cheiro. É claro que, como falante da língua de certo grupo, é mais fácil conhecer outras línguas daquele grupo. Aí vêm as comparações: japonês é complicado. Quando me perguntam, costumo responder: é verdade, português é a língua mais complicada – para o cara que nasce em Tóquio. Lá em Tóquio tem japonesinho que fala japonês, é impressionante.
Toda língua é misteriosa, complexa, rica, bonita. Neruda dizia: Pobre daquele que finca raiz em dois lugares. Sofre duas vezes. Como é que vai ser difícil a língua nativa? Não pode ser, de jeito nenhum.

“A escola não cumpre bem se papel na leitura.

Você tem queda pelas línguas latinas? Elas têm uma riqueza maior?
Entrevistei o embaixador Sérgio Correa da Costa, que lançou o livro Palavras Sem Fronteiras. Fez um programa de computador e pegou todos os textos que circulam no meio diplomático, para ver quais expressões eram usadas internacionalmente. Surpreendente. São quatro línguas, que ele chama de “as quatro grandes”: italiano, latim, francês e inglês. O inglês é o quarto colocado, se não me engano. Ele fez uma observação: o inglês tem muito nome de coisa. Mas, na hora do pensamento e da abstração, a língua inglesa vai para o latim, porque existe no inglês mais de 50% de palavras de origem latina.
Então há essa característica de língua com maior ou menor dose de abstração, que talvez revele um pouco do pensamento daquele povo. Sob esse aspecto, talvez fosse possível fazer algum julgamento, mas é arriscado.

Algumas línguas dão mais vazão à sensibilidade? Um filósofo disse que, antes de estudar qualquer coisa, é preciso estudar a língua para entender a abstração de pensamento.
Teoricamente, sim. Parece que as neolatinas são mais propícias a certas coisas do que o anglo-saxônico inglês. Mas eu precisaria conhecer um bocado de línguas. Entrar no campo das línguas tonais. É um inferno: mudando um pouco o tom, troca-se “santo” por “filho-da-puta”.

O que caracteriza a linguagem “correta”?
Não uso essa expressão. Falo de adequação lingüística. É mais ou menos como roupa. A gente usa de acordo com a situação. O ideal seria que todos tivessem um guarda-roupa lingüístico bem recheado: “roupa” para ir à festa, ao tribunal, à praia, ao supermercado. Seria necessário que o sujeito tivesse domínio da língua que usa no dia-a-dia, mas fosse também buscar as variedades. Daí a função da escola, do Estado: prover as pessoas do domínio das variedades formais da língua. Nós somos um país essencialmente monoglota. Não me refiro ao conhecimento de línguas estrangeiras, falo de poliglotismo na mesma língua. O que é? É ser capaz de ler o editorial do jornal, mais rebuscado, de conversar com o vizinho e de conversar com a pessoa estranha. É ser capaz de ler um clássico, ouvir um rap, ler o ALMANAQUE, e por aí vai. O grosso da população é monoglota: domina só a língua do dia-a-dia. Põe o sujeito para ler um recado do banco, ele não entende.

Lê-se pouco. E o que se lê é de má qualidade.”

E tem dificuldade para escrever.
O que há é um mau desempenho da escola, cada vez pior nesse aspecto. Não estimula o conhecimento diversificado. Tem escola que só trabalha com texto clássico: está errado. Tem escola que só trabalha com a crônica: erradíssimo. A escola não cumpre bem o seu papel nesse ponto e resiste também à questão da leitura. Lê-se pouco. E o que se lê é de má qualidade.

É saudável que surjam manifestações com linguagens próprias, como o rap?
Claro! É um grito das pessoas daquele grupo social que querem e devem ser ouvidas. Manifestam sua cultura, sua realidade, por meio daquela linguagem.

Mas não refletiria falta de cultura cantar numa língua “errada”?
Não é errada, é diferente. É um dialeto, funciona naquela situação. Justamente porque é língua de segmento, de tribo.

Uma crítica que se fazia ao Adoniran Barbosa é que ele estimulava as pessoas a falar “errado”.
Não estimula! As pessoas têm que ter discernimento. Já toquei Adoniran diversas vezes e sempre vem mensagem de telespectador nervosinho dizendo que não tem cabimento, tem que mostrar só o padrão. Não! Tem que mostrar tudo. Você quer coisa mais bonita que certas letras do Adoniran escritas nesse não-padrão, nessa variedade ítalo-brasileira?

“Bilac fala de virgens selvas e de oceano largo.

Surgiu antes o interesse por música ou línguas?
Não sei dizer. Me lembro dos festivais de 1966, 1967. Ouvi Caetano com Alegria, Alegria. E Ponteio,
Domingo no Parque. Eu tinha 12, 13 anos. E já me plantou uma semente.
Um dia, o colégio designou uma turma para entrevistar o radialista Walter Silva, o Pica-Pau. Ele esculhambou o mau gosto. Disse: “Vocês têm que ouvir João Gilberto.” Aquilo me marcou. E me lembro do dia em que o Caetano Veloso e o João Gilberto cantaram na Tupi. Fugi da escola para ver o programa em casa. Tinha uns 15 anos.
Já tinha apego tão grande que ouvia o disco com a ficha técnica na mão. As letras sempre me inquietaram. Fui atrás das referências. E esse pessoal – Caetano Veloso, Chico Buarque – é culto. Nas letras, há referências a coisas que a gente precisa buscar. Como diz o Caetano na genial música Livros:
Os livros são objetos transcendentes / Mas podemos amá-los do amor táctil / Que se devota aos maços de cigarro.

Há uma letra do Noel Rosa: Tudo aquilo que o malandro pronuncia/Com voz macia/É brasileiro/Já passou de português. Queríamos que você falasse sobre a bandeira do Aldo Rebelo [ministro que, quando deputado, apresentou projeto que, entre outras coisas, proibia usar palavras estrangeiras nas propagandas].
Eu disse a ele que acho aquilo inútil, descabido. Uma coisa é dizer que a gente precisa se esforçar para usar o que a língua tem, e não usar um estrangeirismo por mero exibicionismo. Outra coisa é querer impor por lei. Se eu dissesse feedback, e alguém ouvisse, podia passar a caneta, multar. Depois o projeto foi amenizado. Mas a Constituição de 1988 é a primeira das tantas que o Brasil já teve a dizer que a língua oficial é o português. Então já está lá, chega. A saída é pela cultura, pela educação. Pela força, não adianta.

Já prenuncia a vertente brasileira do português.”

No Almanaque a gente procura abrasileirar. Em vez de site, escrevemos sítio; e-mail, emeio. O que você acha?
O Brasil é híbrido nesse território. Aportuguesamos uma série de palavras e não aportuguesamos outras. Por que football virou futebol, leader virou líder, blackout virou blecaute, e show é com “sh”? Por que marketing com “k”? É coisa brasileiríssima. Às vezes, forçar o aportuguesamento fica esquisito. Acho engraçado, provocativo, charmoso, mas é estranho.

Como você vê a linguagem da internet?
Vejo com maus olhos se for a única linguagem, aí o cara é monoglota. O sujeito que usa essa linguagem, com pessoas do mesmo grupo, que entendem, tudo bem. Agora, achar que aquilo tem de ser imposto na marra para todos, fazer um trabalho escolar daquele jeito, não dá. Quando o sujeito vai escrever para todo o mundo, tem de escrever “aqui”, não “aki”.

O computador só lhe serve como máquina de escrever e para alguma pesquisa na internet?
E mesmo assim me enrolo. Tenho quatro filhos e um deles é engenheiro. Ele me dá dicas. Recebi do meu pai e passei para meus filhos a necessidade de pensar, refletir. Esse menino é um exemplo. É engenheiro, mas lê literatura. Vai fazer 24 anos e lê Proust.

Quais são seus autores favoritos?
Talvez Drummond. A poesia é forte, marcante. De passagens geniais. João Cabral de Melo Neto leio, releio, fico encantado com a capacidade de colocar no papel de forma tão engenhosa, tão arquitetônica.
O brasileiro, para ter visão literária boa, precisa ler um pouco de tudo. Pegar desde o barroco. Ler Padre Vieira é o troféu porque, como dizia Fernando Pessoa, é um monumento da língua portuguesa. Entrevistei um escritor português chamado Helder Macedo. Poeta, professor da cátedra Camões no King’s College, em Londres. Ele me disse que, para ele, Machado de Assis não é brasileiro e Fernando Pessoa não é português: são escritores de língua portuguesa.
O cidadão tem que ter um arco. Tem que conhecer literatura africana em língua portuguesa. Mas tem que ler pelo menos os mais representativos de cada fase, começando pelo Gregório de Matos, genial, passando pelos românticos, por Castro Alves. Outro dia entrevistei a Lygia Fagundes Telles e ela falou: “Durante um tempo, a gente foi proibida de gostar de Olavo Bilac porque era parnasiano, defendeu o serviço militar. Mas a poesia dele é extraordinária!” E é uma baita poesia! Precisa ler os gênios, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos. Fundamental.

Sobre Bilac: Última flor do Lácio, inculta e bela. Bela sim, mas inculta?
Esse poema é de 1914: … És, a um tempo, esplendor e sepultura: / Ouro nativo, que na ganga impura / A bruta mina entre os cascalhos vela… / Amo-te assim, desconhecida e obscura etc. Quando ele diz inculta e bela, não quer dizer que a língua é inculta, quer dizer que é ainda pouco cultivada. Tanto que ele fala de virgens selvas e de oceano largo. Ele fala do português do Brasil, já prenuncia a vertente brasileira do português.

Da Redação
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