JOÃO NOGUEIRA

Um sambista de calçada

{novembro de 2009}

Dono de uma voz cheia de ginga, ele se tornou sinônimo do gênero musical que o consagrou, mas transitava por diversos estilos. Ao lado de grandes parceiros, criou clássicos de rara beleza. Engajou-se na luta pela música brasileira quando todos os ouvidos estavam voltados para o que vinha de fora. Sem nunca perder sua essência: “Não sou nem do morro e nem do asfalto. Sou um sambista de calçada”.

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Junho de 2000. O cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, entardeceu transformado. Uma pequena multidão evocava canções inesquecíveis entre sorrisos e lágrimas. Tudo em respeito a um pedido de João Nogueira: “Quero que o meu velório se transforme numa festa em homenagem ao samba”. Poucos, com a sua ginga e carioquismo, foram tão a cara dos subúrbios cariocas, dos sambas feitos em mesas de lata. Ele mesmo se definia: “Não sou nem do morro e nem do asfalto. Sou um sambista de calçada”.
Foi assim desde pequeno. João Batista Nogueira Júnior nasceu em 12 de novembro de 1941 no Méier, subúrbio da zona norte do Rio. O menino vivia solto pelas ruas, sempre pronto para aprontar uma molecagem com os vizinhos. Mas bastava um olhar de desaprovação do pai para ficar quietinho. O homem sério, severo, mas nunca agressivo, era o grande ídolo do pequeno João. “Quando eu acordava e o via, era como se estivesse vendo Deus”, diria, décadas mais tarde.
Foi com o pai, violonista dos bons, que João começou a tomar gosto pela música. As visitas que a casa recebia ajudavam o projeto: Pixinguinha, Donga, João da Baiana. Mas quando tinha apenas 10 anos, o pai morre. Um baque para o menino, que teve que sair para trabalhar: office-boy, vitrinista, bancário.
As diversões eram as rodas de música nos botecos do bairro – já compunha, mas sem pretensão profissional. Os blocos carnavalescos também o animavam, em especial o Labaredas do Méier, do qual começou a se aproximar aos 17 anos. João ganhava todos os concursos para a escolha de sambas – a disputa até perdia a graça. Nessa época, gravou o primeiro disco, um compacto que não rendeu repercussão nenhuma.
Um dos que perceberam que o menino era bom de fato foi Paulo Valdez, filho da cantora Elizeth Cardoso. Ao ouvir mais um belo samba, sugeriu que fosse falar com Elizeth – afinal, ela estava pra gravar um disco. João não levou muito a sério: “Eu achei que fosse papo de quem tá de porre e promete tudo. Imagina, ter uma música gravada pela Divina…”. Não era, e o encontro foi marcado. No lp Falou e Disse, ela soltava a voz em Corrente de Aço. Logo depois, João conseguiu entrar para a ala de compositores da Portela. A carreira começava a deslanchar.

Sendo samba, ele entendia
A partir dos anos 1970, lançou um disco atrás do outro, nos quais se destacava seu estilo original, sincopado, difícil de classificar. Os sambas de João tudo continham (às vezes ao mesmo tempo): partido alto, bossa, samba tradicional, de exaltação, seresteiros, afro-sambas. As letras também eram dos mais diferentes tipos. Começou a se aproximar de novos parceiros. O mais constante seria Paulo César Pinheiro. Com ele gravou, em 1975, o maior sucesso da música brasileira daquele ano, Mineira, em homenagem à cantora Clara Nunes, que era casada com Paulo.
Outra canção da dupla se tornaria a mais emblemática da carreira, Espelho, na qual relembra com extrema beleza a infância suburbana e a figura do pai: Num dia de tristeza me faltou o velho / E falta lhe confesso que ainda hoje faz… Em 1983, com a morte de Clara [veja texto na página 5], ainda faria, em parceria com Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte, a canção Um Ser de Luz. “Éramos os maiores parceiros dela. Cada vez que a gente se encontrava para terminar a música, era um derramar de lágrimas.”
 

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Um dos que perceberam seu talento foi o filho de Elizeth, que sugeriu um encontro. “Eu achei que fosse papo de
quem tá de porre. Imagina, ter uma música gravada pela Divina…”

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Clube do Samba

“Em 1979 não se ouvia música brasileira no Brasil”, dizia João. No fim daquela década, as rádios estavam infestadas pela música de discoteca, influenciada pelo filme Embalos de Sábado À Noite e pela novela global Dancin’ Days. Os sambistas passavam um perrengue danado pela falta de lugar para gravar e se apresentar. Engajado, João decidiu criar um local onde os artistas poderiam discutir sobre música e mostrar obras novas – e antigas também. Surgia o Clube do Samba.
A primeira reunião ocorreu no quintal da própria casa. Mais de cem artistas marcaram presença. Entre eles, Martinho da Vila, Clementina de Jesus e Nelson Sargento. Um verdadeiro quartel-general em defesa da cultura brasileira. A primeira música tocada pelos presentes não poderia ser outra: Samba, agoniza mas não morre / Alguém sempre te socorre / Antes do suspiro derradeiro… O Clube do Samba existe até hoje, e desfila durante o Carnaval pela avenida Rio Branco.

Na avenida

Em 1984, houve um movimento de dissidência da Portela motivado por diferenças de alguns integrantes com o presidente Carlinhos Maracanã. Um grupo criou a escola de samba Tradição. João Nogueira e Paulo César Pinheiro foram chamados para ser os compositores dos sambas-enredos. Melhor impossível. Em apenas três anos, numa subida meteórica, a escola saiu do grupo II-B (algo como a quarta divisão) para o Grupo Especial.
Durante os anos subsequentes, João não pararia de gravar e viajar pelo País em apresentações concorridas. Quando estava prestes a lançar o 19º disco, sofreu um enfarte em casa. Seu samba emudecia. Com ele morria um estilo único.
Em marcha pelas alamedas do cemitério, uma pequena multidão soltou, em uníssono, um derradeiro e comovente canto de despedida, lembrando-se da música que João fizera para Clara 17 anos antes: Sabiá / Que falta faz sua alegria / Sem você / Meu canto agora é só melancolia / Canta, meu sabiá / Voa, meu sabiá / Adeus, meu sabiá / Até um dia…

Saiba Mais

Clique e assista a apresentações e entrevistas de João Nogueira.

Bruno Hoffmann
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