PAULO AUTRAN

Uma vida nos palcos

{outubro de 2009}

Ele foi dos raros atores que se tornou conhecido pelo teatro, não pela televisão. Sabia dirigir, mas preferia interpretar. Era mesmo uma exceção: não encontrou dificuldades para se estabelecer nas artes cênicas ou realizar as peças que quis. Sorte? Sim. Mas não mais que talento e paixão. Aclamado por crítica e público, só deixou os palcos quando morreu, após 57 anos de profissão.

Paulo Autran

”Como é que eu faço pra sair dessa?”, perguntou Paulo Autran para Abílio Pereira de Almeida, dramaturgo e amigo. “Paulo, não saia dessa. Você é um ator, tem talento para fazer teatro, gosta de fazer teatro. Continue.” O jovem advogado, dono de um próspero escritório e ensaiando sua primeira peça profissional, seguiu o conselho. Entregou-se à paixão pelas artes cênicas, que o realizaria por toda a vida e o consagraria como “senhor dos palcos”.
Apesar de ter tentado escapar, argumentando não entender de teatro, Paulo assistia a encenações desde os 8 anos. O pai era delegado e ganhava ingressos para o Teatro Municipal. O garoto pegou gosto e aos 11 anos já não perdia nenhuma peça em cartaz na cidade. Nascido no Rio de Janeiro em 1922, ele morou no interior de São Paulo. Mudou-se com a família para a capital quando tinha 6 anos, mesma época em que, precocemente, perdeu a mãe. Além do teatro e recitais de piano, a grande diversão era a biblioteca da vizinha. Devorava Eça de Queiroz, Machado de Assis, franceses e russos, trepado na árvore do quintal. Achava bobos os versinhos do primário e não agradava os professores com suas redações complexas. Foi estudar Direito para ser diplomata, mas enveredou pela advocacia.
A comunidade do teatro, Paulo dizia, foi a primeira da qual sentiu-se parte. Começou de forma despretensiosa, num curso de um instituto cultural. Com colegas de lá, fundou uma trupe amadora. Atuou em algumas montagens e foi para o Grupo de Teatro Experimental. Quando a atriz Tônia Carreiro o viu encenando, em 1949, insistiu para que ele entrasse em sua companhia. Só então o teatro viraria profissão.

Sem nem alterar a voz
Paulo teve uma carreira completamente atípica: já estreou no topo. Calculou os ganhos que tinha no escritório, os gastos da mudança para o Rio de Janeiro, e pediu um ordenado altíssimo. O sócio de Tônia aceitou, e só depois ela soube que o ator ganhava mais do que os donos da companhia. Com o sucesso de Um Deus Dormiu Lá em Casa, contudo, o saldo foi positivo para todos. O ator estreante ganhou os principais prêmios daquele ano – os primeiros de uma extensa coleção.
Paulo e Tônia foram convidados para o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), aspiração máxima de qualquer ator na época. Lá Autran contracenou com outros grandes, como Cacilda Becker e Sérgio Cardoso. Em 1955, formou-se a companhia Tônia-Celi-Autran, de Paulo, Tônia e o marido, o diretor Adolfo Celi, a quem Paulo creditava sua formação técnica e teórica. Logo de cara Otelo, de Shakespeare. Ficam um ano em cartaz. O crítico Décio de Almeida Prado escreveu que, para passar toda a autoridade, força e dor do general, Autran não precisava nem alterar a voz.
Mais tarde, Paulo fundou a companhia com seu nome. Produziu montagens, sempre atuando nelas. Chegou a dirigir também, mas gostava mesmo era de interpretar. Ao longo da vida, participou de 90 peças. Encenou cinco textos de Shakespeare, além de uma lista invejável de grandes autores. Pirandello, Dickens, Sartre, Millôr, João Cabral. My Fair Lady (1962) e Rei Lear (1996) são os dois maiores sucessos. Liberdade, Liberdade (1965) marca a participação política. Paulo não gostava muito do assunto, mas, no começo da ditadura militar, achou que “não se posicionar já era um posicionamento”.

Tevê e cinema
Paulo nunca teve dificuldades para realizar as peças que quis. Sorte? Quando o crítico Alberto Guzik lhe fez a pergunta, respondeu: “Por sorte e amor ao teatro”. Exigente, só participava do que julgava bom. Chegou a deixar um espetáculo em Portugal, com os ingressos já vendidos, porque achara o texto péssimo. Noutra vez, foi assinar o contrato para participar de uma novela, o diretor deixou cair tinta no papel e a assinatura ficou para a semana seguinte. Enquanto isso, Paulo leu os primeiros capítulos. Mesmo com o nome anunciado, disse que não faria a novela “em hipótese alguma”.
Na verdade, o ator nunca gostou muito de televisão, apesar de ter participado dela desde o início, em quadros de programas como Alô Doçura e Noite de Gala. Torcia o nariz para as histórias arrastadas em novelas e para a interpretação pouco apurada. Experimentou atuar em Pai Herói (1979). Fez ainda Guerra dos Sexos e Sassaricando, nos anos 1980. Se comparado ao teatro, no cinema também não integrou muitos elencos. Depois de Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha, ficou 18 anos sem ir para a telona.
Dos palcos era difícil se afastar. Em 1983, quando o médico diagnosticou um problema cardíaco que exigia cirurgia imediata (“Fiz um exame e descobriram um entupimento de 95% das veias do coração”), pediu para adiar a operação por mais um fim de semana. Queria cumprir a agenda de espetáculos. Quando subiu no palco e prestou atenção ao teatro lotado, ficou tão emocionado que achou que teria um enfarte. Resistiu.
A morte ainda lhe daria tempo. Mas chegou em 12 de outubro de 2007, aos 85 anos. Fumante incorrigível, tratava um câncer no pulmão havia um ano. Ficou em cartaz até um mês antes de morrer.

Saiba Mais
Um Homem no Palco, entrevista de Alberto Guzik (Boitempo, 1998).
Paulo Autran – Sem comentários, de Paulo Autran (Cosac Naify, 2005)
Clique aqui e assista a trechos de encenações do ator.

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