19 DE NOVEMBRO É O DIA INTERNACIONAL DO XADREZ

Vidas em branco

{novembro de 2007}

Uma das minhas rombudas desinformações na vida é que nunca aprendi a jogar xadrez. Xadrez que eu digo é o jogo que, segundo consta nas atividades humanas, é fundamental para desenvolver o raciocínio. Esclareço que não tenho nada contra o xadrez. Ao contrário, o considero uma atividade saudável, refinada, civilizada. Até onde sei, e sei muito pouco, jamais se ouviu dizer que algum competidor tenha perdido a compostura diante de uma derrota perante o adversário, e tenha partido para as vias de fato. No xadrez, cavalo algum escouceia, torre não desaba por falta de fiscalização, nenhum rei comete injustiças.
Um singular grupo de colegas tinha o hábito de reunir-se após o expediente noturno para espairecer. Em vez de ficar jogando conversa fora, decidiu passar a noite organizando competições de xadrez. A princípio, nada mais louvável. Talvez não fosse o local adequado, perfeito. Era um bar com uísque nem sempre de qualidade impoluta, aguardentes ásperas e mistos frios. Mas com treino obteve-se respeitoso silêncio. O problema partiu do dono do estabelecimento, que passou a sentir-se incomodado com a falta do clima de algazarra que normalmente animava o boteco. Então alguém sugeriu que se passasse a cobrar pelo silêncio obrigatório no bar enquanto se jogava xadrez. Uma taxa pela boa educação no local barulhento. O proprietário do espaço – não era o único, fazia parte de uma sociedade – disse que consultaria os sócios diurnos, que, evidentemente, não concordaram.
Essa singela história, que parece inventada, somente não se tornou totalmente lendária porque o grupo de rapazes decidiu de comum acordo manter o bar como ponto de barulho intelectual num certo trecho da rua Barão de Campinas, que, de resto, não tinha nada da nobreza de velhos barões. Numa incerta noite, indeterminada mulher, honesta, trabalhadora, enfrentara a madrugada friorenta para oferecer bilhetes de loteria, que era sua atividade diária. A senhora tinha cãs, era corcunda, andava com grande dificuldade, e vendia bilhetes no centro da cidade, apoiando-se sentada numa cadeira com assento
de palhinha. Era tradicional figura paulistana.
Havia, todavia, um pormenor inesquecível: a mulher caminhava sentada na cadeira de assento de palha. Não largava a cadeira; e a cadeira não largava a mulher. Durante anos e anos andaram juntas. Tudo isso faz um tempo enorme; a senhora de cabelos brancos deve ter falecido; e a cadeira de assento de palhinha também.
Antes, porém, a senhora apareceu no começo de uma madrugada no boteco dos Campos Elísios. Foi oferecer um bilhete ao dono do bar. Um bilhete inteiro. O dono recusou a princípio, mas pagou, confiando na sorte. Uma cena noturna, que ninguém registrou nos anais fluidos da vida.
Cinco dias depois, o dono do boteco lembrou-se de conferir os números. Olhou na lista de extrações, arregalou os olhos, suspirou. O bilhete vendido pela mulher de cabelos encanecidos que caminhava arqueada numa cadeira de assento de palha saíra em branco. Da mulher nunca mais se ouviu falar. Deve ter desaparecido na neblina. Informo que naqueles tempos, além de muita neblina, havia também estrelas na rua Barão de Campinas, nos Campos Elísios.

Lourenço Diaféria
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