107 – Março de 2008

ESTAÇÃO ANTÁRTICA COMANDANTE FERRAZ

DO VERDE AO BRANCO

Texto e fotos de Heitor e Silvia Reali


ANTÁRTICA: “ÁREA DE PAZ E CIÊNCIA”, PARAÍSO NEUTRO DA HUMANIDADE.

Em 2008, o mais gelado cantinho brasileiro do planeta completa 25 anos. E mesmo a 5 mil quilômetros de distância de Brasília, preserva ainda os sabores de nossa terra em meio à solidão antártica – seja numa cachaça das boas ou num churrasco gaúcho. Na nossa bandeira também há lugar para o branco do continente gelado.

O ano de 1983 começou diferente para alguns brasileiros. Nada de viagens manjadas como uma praia pela manhã e um samba ao cair da tarde. Em 6 de janeiro, um grupo de 89 pessoas aportava num cantinho fora do mapa do Brasil, transportados para um universo de sensações e descobertas. Eram os primeiros brasileiros a chegar à Antártica numa viagem oficial. Estava dada a largada para um dos programas científicos mais importantes do País.
Desde 1959 vigora o Tratado da Antártica, que torna o continente uma “área de paz e ciência”, com severos sistemas de proteção ao ambiente. A região é hoje um paraíso neutro que pertence à humanidade, palco de pesquisadores do mundo inteiro que para lá se dirigem para estudar a vida passada e futura. O Brasil, sem ambições territoriais, levantou ali sua bandeira e se faz presente na Ilha Rei George, na Península Antártica. É a Estação Antártica Comandante Ferraz.


ESTAÇÃO COMANDANTE FERRAZ ABRIGA ATÉ 80 PESSOAS.

A natureza não cobra ingresso
As paisagens insólitas da Antártica são consideradas as mais belas do planeta. Nas grandes planícies ondeadas por glaciares, algumas vezes são visíveis faixas negras nas montanhas cobertas de gelo e neve. São rochas vulcânicas que ainda se mantêm aquecidas. Nessa natureza minimalista – montanhas brancas, mar e céu – o cenário é sempre cambiante. Conforme o ângulo dos raios solares, mudam-se as cores oceânicas, as do céu e as do gelo. Tonalidades de verde e azul predominam nas águas geladas. Cobalto e tons de cinza para o céu; marfim riscado de negro para as montanhas. O dourado surgirá para desaparecer logo em seguida, dependendo do humor do Sol. E seus raios sobre os icebergs proporcionará um espetáculo novo a cada ângulo.
As boas-vindas quem dá são os pingüins reis, os pequenos gentoos, os macaronis (aqueles pingüins com tufos dourados na cabeça). E também as gaivotas, petréis-gigantes, skuas, albatrozes, focas, leões-marinhos e baleias. A Antártica não é nada modesta quando se trata de conquistar recordes. Com precipitações médias de apenas 5 centímetros por ano, é o local mais seco da Terra. Os Vales Secos não recebem uma única gota de chuva há pelo menos dois milhões de anos. É também a região mais fria, com média de -16 ºC, e registrou a mais baixa temperatura do planeta: -89,6 ºC.

Calor além dos trópicos
Durante os verões antárticos (de outubro a fevereiro), a Estação Comandante Ferraz chega a abrigar 80 pessoas, entre pesquisadores e técnicos. Como que para marcar os 25 anos do Brasil na Antártica, o frio não deu trégua. Foi o pior inverno desde que os brasileiros ali desembarcaram. A estação ficou encoberta pela neve. “Não precisamos nem ligar os aquecedores. O gelo cobriu todas as dependências e o frio foi blindado como se estivéssemos num iglu”, disse um dos cientistas. Outro brincava: “Lá fora o branco era tão gritante que dava vontade de tapar os ouvidos”. A relação entre brasileiro e frio é sempre tensa. É sinônimo de resfriado, frieira e mau humor. Mas não é o que acontece na Estação Comandante Ferraz. Ali o calor humano prevalece.


GENTOOS E MACARONIS DÃO AS BOAS-VINDAS AOS FORASTEIROS.

Nascidos por combustão espontânea da alegria, os brasileiros – estes filhos do Sol – se sentem em casa mesmo sob um frio de lascar. Bolo de fubá e cafezinho estão sempre à disposição numa sala revestida de madeira, que acolhe visitantes e pesquisadores. E, como nesse continente não adianta apelar para seu pistolão no céu, fazer mandinga ou simpatia para garantir um dia ensolarado, há na Estação um pátio coberto. Lá, uma grande churrasqueira e, a seu lado, uma barriquinha “das boas”, onde se lê: Estoura Cérebro. Só mesmo uma cachacinha para amenizar o frio nas horas de descanso.


DENTRO DA ESTAÇÃO, BOLO DE FUBÁ E CAFEZINHO PARA ESQUENTAR OS FILHOS DO SOL.

Mas, na hora do batente, o pessoal não deixa a bola cair. Tem que ter a mente equilibrada para suportar o isolamento e o silêncio do continente. Não seria exagero dizer que o branco de nossa bandeira também pode representar nossa presença na Antártica.


NO DESTAQUE, BAÍA DO ALMIRANTADO,
ILHA REI GEORGE, ONDE A BASE
BRASILEIRA DIVIDE COM MAIS 8
ESTAÇÕES DE OUTROS PAÍSES.

PRESTE ATENÇÃO

Antártica ou Antártida? Não há erro algum em utilizar os nomes Antártica, válido por sua origem, ou Antártida, usado por costume internacional, introduzido no Tratado Antártico. O nome Antártica (Antarktikos) se deve ao filósofo grego Aristóteles. Ele julgava que, para equilibrar a massa conhecida do Hemisfério Norte situada sob a constelação Ursa Maior (Arktos), deveria haver no Sul outra massa equivalente. Ou seja, Antarktikos.

 

PRATA DA CASA
NOSSO HOMEM DO GELO


JEFFERSON SIMÕES: NOS CRISTAIS DE GELO, A HISTÓRIA DO CLIMA DA TERRA.

Desvendar enigmas em regiões inóspitas, com armadilhas que escondem fendas gigantescas, não é feito exclusivo de arqueólogos. À procura de pistas do passado da Terra, mas também de olho no futuro, o glaciólogo Jefferson Cardia Simões, junto com sua equipe da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), não espana poeira na Antártica. Dentro de trincheiras, Simões está à cata de amostras de cristais de gelo que guardam a história do clima da Terra.
O garimpo é feito por perfurações que atingem centenas de metros. As amostras colhidas permitem obter, pela química do gelo polar, um rico arquivo sobre a evolução do clima e da atmosfera ao longo de milhares de anos. Jefferson conta que esses estudos tornaram possível determinar variações da concentração de gases-estufa ao longo dos últimos 720 mil anos, além de mudanças de temperatura atmosférica, explosões vulcânicas, processos de desertificação global, eventos de alterações climáticas abruptas e padrões de circulação da atmosfera e dos oceanos. “Os resultados desses estudos são uma das principais contribuições do Brasil para o painel intergovernamental da ONU sobre mudanças climáticas”, explica o pesquisador.
Com 18 viagens ao continente, e com o título de primeiro brasileiro a chegar ao pólo sul geográfico, Jefferson batalha pela construção de uma estação brasileira no interior da Antártica – a Comandante Ferraz localiza-se na Ilha Rei George. Conhecedor das dificuldades de liberação de verbas para projetos científicos por parte do governo, procura ajuda na iniciativa privada e espera, assim, dar mais um salto de qualidade nas pesquisas para obter respostas sobre o clima da América do Sul.
Bom à beça no que faz e reconhecido como autoridade no mundo todo, o gaúcho já sentiu na pele os percalços ocasionados por suas escolhas profissionais – seja pela dureza do ambiente em que trabalha ou pelas dificuldades que qualquer pesquisador brasileiro enfrenta para tocar adiante seu trabalho. Mas ele já provou: possui perseverança e determinação capazes de levá-lo para qualquer lugar do planeta.

SAIBA MAIS

Antártica, a última fronteira, site que narra as aventuras de Jefferson Cardia Simões na primeira travessia brasileira do manto de gelo antártico: www.ultimafronteira.com.br.